Inevitabilidades

farbigen Linien

"Deixa-me errar alguma vez,

porque também sou isso: incerta e dura,

e ansiosa de não te perder agora que entrevejo

um horizonte.

Deixa-me errar e me compreende

porque se faço mal é por querer-te

desta maneira tola, e tonta, eternamente

recomeçando a cada dia como num descobrimento

dos teus territórios de carne e sonho, dos teus

desvãos de música ou vôo, teus sótãos e porões

e dessa escadaria de tua alma.

Deixa-me errar mas não me soltes

para que eu não me perca

deste ténue fio de alegria

dos sustos do amor que se repetem

enquanto houver entre nós essa magia.”

Lya Luft

"O amor bate na porta 
o amor bate na aorta, 
fui abrir e me constipei.”

Carlos Drummond de Andrade, in ‘Brejo das Almas’

"Tão velho estou como árvore no inverno, 
vulcão sufocado, pássaro sonolento. 
Tão velho estou, de pálpebras baixas, 
acostumado apenas ao som das músicas, 
à forma das letras”

Cecília Meireles

Há tanta suavidade em nada se dizer 
E tudo se entender —
Tudo metade 
De sentir e de ver… 

Fernando Pessoa

A calma é tão profunda
e abstracta que a sua fórmula não vem nos livros
e não há movimentos que a desenhem
o importante não tem tamanho para caber na televisão.
Gonçalo M. Tavares

"Estragas-me a paz.
e eu preciso das minhas solidões
de bocados mentais sem ti

Começo a ser doença obsessiva
ao repetir-me por poemas isto:
as tuas invasões à minha paz.
(Podia até em jeito original
por aqui umas notas sobre ti:
cf., vide: textos tal e tal)
Mas é que a minha paz fica toda estragada
quando te penso amor.”

Ana Luísa Amaral

"brincávamos a cair nos 
braços um do outro,
como faziam as actrizes nos filmes com o marlon 
brando, e depois suspirávamos e ríamos 
sem saber que habituávamos o coração
à dor. queríamos o amor um pelo outro 
sem hesitações, como se a desgraça nos 
servisse bem e, a ver filmes, achávamos que 
o peito era todo em movimento e não sabíamos que a vida podia parar um dia. eu ainda te disse que me doíam os 
braços e que, mesmo sendo o rapaz, o 
cansaço chegava e instalava-se no meu 
poço de medo. tu rias e caías uma e outra 
vez à espera de acreditares apenas
no que fosse mais imediato, quando os filmes acabavam, 
quando percebíamos que o mundo era 
feito de distância e tanto tempo vazio, tu 
ficavas muito feminina e abandonada e eu 
sofria mais ainda com isso. estavas tão 
diferente de mim como se já tivesses partido e eu fosse apenas um local esquecido 
sem significado maior no teu caminho. tu 
dizias que se morrêssemos juntos entraríamos juntos no paraíso e querias 
culpar-me por ser triste de outro modo, um 
modo mais perene, lento, covarde. Eu amava-te e julgava bem que amar era 
afeiçoar o corpo ao perigo. caía eu nos teus braços, fazias um 
bigode no teu rosto como se fosses o 
marlon brando. eu, que te descobria como se
descobrem fantasias no inferno, não queria ser beijado pelo marlon brando e 
entrava numa combustão modesta que, às 
batidas do meu coração, iluminava o meu 
rosto como lâmpada falhando”
walter hugo mãe, in ‘contabilidade’

Absorbing….

And now it’s time for a love poem